Maria Inez Magalhaes, em O Dia
Ele foi um homem da lei e fora da lei. Agora, o ex-PM Robson Holmes, 42 anos, é o primeiro ex-miliciano a fazer parte do Grupo Cultural AfroReggae. Conhecida por promover a recuperação de criminosos, a ONG iniciou com Holmes o trabalho de resgate de integrantes de grupos para militares.
“Já consegui empregos para quatro ex-milicianos nas empresas nossas parceiras”, orgulha-se Holmes, um dos responsáveis pelo projeto Empregabilidade, que encaminha presos que ainda cumprem pena e ex-detentos ao mercado de trabalho.
Assim como ajudou os quatro amigos, ele começou no AfroRegge e pelo Empregabilidade. “Fui ser manobrista. Gostei muito. Fiquei deslumbrado com os carrões que dirigia”, diverte-se o ex-cabo.

Robson Holmes procurou o AfroReggae há dois anos e já trabalhou como manobrista: “Gostei muito. Fiquei deslumbrado com os carrões que dirigia” | Foto: Felipe O’ Neill / Agência O Dia
Holmes foi expulso da PM por envolvimento com o jogo do bicho. Seu nome apareceu numa anotação de proprinas apreendida numa operação da Polícia Civil. “Ganhávamos dinheiro para não coibir esse tipo de crime”, revelou ele, que cumpriu pena no Complexo Penitenciário de Gericinó e não tem mais dívida com a Justiça.
Holmes conta que começou na milícia em 2003. Ainda PM, ele atuava da comunidade onde morava, em Duque de Caxias. Expulso da corporação, passou a ajudar grupos de milicianos.
Confessa que procurou o AfroReggae por pressão da família. “Disseram que iriam me abandonar se eu voltasse à milícia. Vi matéria sobre o AfroReggae e procurei”, contou Holmes, que entrou há dois anos na ONG.
Ele revela que, ao ser solto, foi recebido por integrantes da milícia. “Me deram dinheiro para continuarmos com as ações. Mas minha família me viu com eles e desisti”, diz Holmes. Perguntado se está arrependido, ele é direto: “Fiz o que tinha que fazer. Estou numa nova vida”.
Histórias do mundo da criminalidade
Com ex-traficantes e policiais da ativa, Holmes participará terça e quinta-feira do Comandos, novo projeto do AfroReggae. Eles contarão histórias dos grupos dos quais participaram. “Diziam que era impossível recuperar traficantes e provamos o contrário. O mesmo estamos fazendo com os milicianos”, festeja o coordenador-executivo do AfroReggae, José Junior.
Desde 2008, pelo menos 680 pessoas foram presos por integrar milícias
Pelo menos 680 pessoas foram presas desde a criação, em 2008, da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) na Alerj para investigar a ação da milícia no estado.
Depois de cinco meses de trabalho, a CPI, que foi presidida pelo deputado Marcelo Freixo (PSOL), indiciou 218 das 879 pessoas envolvidas, entre elas, oito policiais civis, 67 PMs, três bombeiros, dois agentes penitenciários, dois militares das Forças Armadas, cinco militares de órgãos não identificados e 130 civis.
Segundo o relatório, cobrança de taxas e o monopólio de serviços nas favelas renderam um império financeiro aos envolvidos. A Justiça condenou vários, como o ex-deputado Natalino José Guimarães, o irmão dele e ex-vereador Jerônimo Guimarães Filho, o Jerominho, que atuavam em Campo Grande, na Zona Oeste do Rio.

Os irmãos Jerominho e Natalino foram condenados por formação de quadrilha que atuava na Zona Oeste | Foto: Osvaldo Praddo / Agência O Dia
Foram mapeados ainda Honório Gurgel, Rio das Pedras, Gardênia Azul, Curicica, Campinho, Vila Valqueire, Bangu e Duque de Caxias, entre outros. Os grupos se estruturaram em 171 comunidades, 118 delas no Rio, 34 na Baixada, cinco em Itaguaí, quatro em Niterói e São Gonçalo, cinco na Região dos Lagos, duas no Norte e três no Sul Fluminense.
Colaborou Geraldo Perelo